sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Kultme 23 - Analisando o texto teatral II



Analisando o texto teatral – Parte II


dedeu
Dedéu! Taí, promessa é dívida. No artigo anterior, prometi descobrir a origem do verbete “longe pra dedéu”. Uns dizem que a gíria veio junto com os hippies nos anos 70, outros que é o nome de uma expressão da Idade Média – D’Edel – que significava nobre. Mas gostei da versão que se explica por uma crença popular. Um homem – Dedéu – que tinha pernas muito longas e chegava rápido em qualquer lugar. Um certo dia, foi procurar uma cachoeira dentro de uma floresta e nunca que aparecia essa cachoeira. Um dia todo percorrido com longas pernas, eis que ele desiste. “Se o lugar era longe para Dedéu, imagine para nós? ” Gostei dessa, aliás adoro crenças populares, nos leva longe! Significa muita quantidade ou intensidade. Tudo a ver com teatro!
Continuemos nosso propósito com o texto teatral, iniciando no artigo anterior.
leituraCom todo aquele entusiasmo pelo texto, com todas as anotações destacadas na sua cópia, sua cabeça já deverá estar cheia de dúvidas, anseios, curiosidades e ideias. Que bom! É assim mesmo! Próximo passo é destacar o ASSUNTO do texto. O assunto é um resumo em palavras versando sobre como a história é contada e sobre quem ela se desenha. Dependendo, do texto, isso não é uma tarefa tão simples assim. Alguns personagens devem aparecer nesse assunto, destacando quem é o (s) protagonista (s) e o (s) antagonista (s). Lembrando que protagonista não é o mocinho ou mocinha da história e antagonista não é o malfeitor. Protagonista faz a história acontecer e antagonista, provoca o conflito. Extremamente importante que se discuta o assunto do texto, porque uma má interpretação da história e do assunto, pode desencadear um assunto preso no umbigo. Não é errado, mas tem que assumir o assunto destacado até o fim.
Assunto destacado, o TEMA é o próximo passo. O que a peça aborda? Do que ela trata? Do que se questiona? Pode ser um só tema ou vários. Mas são substantivos! Amor entre irmãos, crise conjugal, solidão, avareza, amizade, crimes, entre tantos. Deve-se tomar um grande cuidado aqui: como sempre há vários temas dentro de um texto, eleja aquele que está inerente à obra e não a estórias particulares de personagens. O olhar tem que ser amplo! Porque o tema deve estar implícito ou explícito nas cenas do espetáculo como um todo.
Assunto e tema em mãos. Uau! Quanta coisa colocada nos questionamentos de mesa! Parta agora para o SUPEROBJETIVO. Que é o pensamento do AUTOR e não seu, ao escrever sobre aquele texto. O superobjetivo justifica as ações dos personagens.
Esse tripé já proporciona um outro olhar sobre a obra a ser construída para os palcos. Não deixará ilhadas, as dúvidas quando elas surgirem. Teremos, então, embasamento concreto para achar respostas.
textoPapo técnico esse não? Pois é! Mas é assim. A roupagem que você vai dar para o espetáculo é outra coisa. A roupa pode ser aquela que você quiser, mas o interior tem que ser estudado, para a roupa cair melhor. E quer saber? É gostoso demais fazer essa decupagem. São períodos de descobertas e olhares mais profundos. No mínimo, enquanto artista, teu olhar vai ficar mais apurado.
Mas querem saber? Conheço uma pá de atores que odeiam fazer trabalho de mesa. O resultado a gente vê no palco. Mas tem gente que não liga mesmo. Mas eu ligo! Um beijo e um queijo!
Indicação
  • Livro para ler: Plinio Marcos – A crônica dos que não tem voz
plinioEntrevistas e textos são utilizados para dar vida às obras do dramaturgo santista e a cidade de Santos. Mais do que isso, presentearam o leitor com saborosas e debochadas crônicas do santista, algumas inéditas.
Plínio faria 80 anos agora neste mês de setembro. Leitores, é fundamental ler, ao menos, uma obra deste “craque” da dramaturgia nacional.


Poesia minha - Carrocidade

Carrocidade

No meu carro eu ouço tudo
Tem um riders on the storm
Seguido de Creep
Agasalhado por Não existe amor em SP
Disparado com flashes de Papparazzi
Cabe sim, cabe bem, Cabo verde!

Where the streets have no name,
Pizzicato five
Bruno Mars encorpado com Tulipa
Vem Zeca, o da bala ou o da mesa de bar?
Cabe!
Where?
No meu carro eu ouço o que me faz sorrir
The Animals, the house of the rising sun
Rise, PIL, Depeche com Strange love ou Stray, o cats

Madonna não rima com Legião urbana
Mas no possante, rima, não é Rael? Da rima
Com carimbó quase saio dançando
Vou dirigindo e sambando com Diogo Nogueira
Vou sorrindo pelos cantos cantando
Marisa Monte e seu xote das meninas,
Que me remete à Julieta com seu apaixonado Romeu

Cabe....cabe....cabe, cabimento, cabideiro
cabeçudo, cabe tudo, cabe mais com o som do mundo
E vou dirigindo apaixonado!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Poesia minha - Estágios

Estágios

Criança na ciranda, circula
Circula na roda, a esperança
Esperança não se alcança, na espera
Espera não combina com criança
Criança brinca e se encanta
Encanta com o simples e com carinho
Carinho dos momentos, batimentos
Batimentos em momentos, ah a criança...


Circula!


A roda gira, o tempo anda... de bicicleta
Que circula, que circula...
Que reverbera no viver infantil
Que libera prazer na juventude
Que traz dúvida ao adulto
Que enobrece os mais velhos
E que circula
E nos aproxima frente da vida!
Seja em qual estágio for!


Vem criança....

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Poesia minha - Infanticida

Infanticida

Um menino caminhando sobre algodão, branquinho
Dente de leite caído quebrado, afogado
Solidão demais no campos da sagração
a primavera não deu as caras desta vez, inverninho?

Sei não, sei lá, sei, só sei que nada sei, ah o menino
pequenino chorava e sorria em doses paralelas
tropeçando no branco algodão, me dê sua mão?
nada, nada, nada, somente nada, era a solução

Ah o menino, cadê o menino?
onde foi parar seu sorriso, ao longe ainda, o choro
Explosão, abafando o sonoro
Ainda escuto lá longe umas lágrimas amargas
que sumindo vão lá, agouro?

Agora o menino é abraçado não sei por quem
não tem som, não tem explosão, não tem rumor
Tem sentimento bom que não tinha aqui

Tem vazio, oco, solidão
Tem chão!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Poesia minha - Agradecimento

Agradecimento


Amigos, amigos, amigos
Obrigado pelos votos de aniversário
Quando se pensa o contrário
Melhor ficar preso no armário.
Ih já virou conversa de sexualidade, que nada!
Armário aqui é conversa fiada

Comemorar comigo
minha idade que passa todo dia
E que se renova a todo instante
me traz felicidade que irradia
Com as palavras enviadas ou figuras imaginadas
Que do amor nunca está distante

Fico pensativo comigo
O dia que rompe a bolsa
Logo precisamos de abrigo
E é nos braços da mamãe
Que nosso chora repousa.
"Dorme nenê que a Cuca vem pegar..."

Nascer é nossa dádiva divina
Nasci, logo existo!
Comemorar mesmo, para evocar
Os deuses protetores
Do nosso livre arbítrio
De gostar e de não gostar
Das causas e consequências das escolhas

E tem quem não tá nem aí prá você!
Mas para não pra ligar isso
Eu tenho
amigos, amigos, amigos!
Nasci, logo existo!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Kultme 22 - Analisando o texto teatral



Analisando o texto teatral



textoAlzira – “Não diga palavrão, não. Isso é uma coisa muito feia… Você, toda vida, foi muito educado, graças a Deus. Essa queixa ninguém pode lhe fazer. Ninguém. O melhor menino que tinha por aqui era você, e todo mundo dizia. Dizia mesmo. Na escola, na missa…. Todo mundo dizia. Agora, não diga palavrão, não. Você não dizia naquele tempo, pra que é que vai dizer agora? Ainda mais dentro da sua casa. O que a gente aprende na rua, a gente deixa na rua. Não traz pra casa, não. Limpou os pés na soleira da porta, pronto: o que era da rua fica pra trás. Chega, pelo amor de Deus. ” (Trecho extraído de Avental todo sujo de ovo, de Marcos Barbosa)
Texto! Esse é o primeiro documento que nos chega às mãos quando pensamos em montar algum espetáculo. E entende-lo é o primeiro passo para que os pensamentos da direção, encenação, elenco e técnicos caminhem na mesma proporção. Daí chegamos a um trabalho que está quase em extinção: o trabalho de mesa.
lerTrabalho de mesa é essencialmente um trabalho de destrinchamento do texto feito na MESA. Não no sofá, na cama, no chão, no carro. É muito importante o circular ou retangular ou quadricular para que se escutem os sons, as palavras e enxerguem as reações de todos. Um trabalho de mesa é demais de importante, porque quando vamos para a fase de improviso/ensaio já tem um belo caminho percorrido/entendido. Não sei por que cargas d’agua muitos insistem em achar que é só decorar e fazer. Fazer é muito diferente de entender! Questionar! Sempre questionar, como Alzira, do texto acima, questiona o filho!
No trabalho de mesa, vamos analisar o texto e o caminho é extenso. Há trabalhos de mesa que duram uma série de encontros. Esses são bons! O objetivo de uma análise de texto é proporcionar atalhos criadores para a concepção do espetáculo, por parte de todos. Ao elenco, cabe aplicar a seus personagens, ações dramáticas e conflitos.
A comunicação do texto ao público é a primeira vontade para a concepção por parte do diretor. Numa real análise da forma e do conteúdo, onde se descobre e discute todos os porquês do texto, essa comunicação fica mais próxima da realidade. A quantidade de assuntos e abordagens para esse trabalho de mesa é enorme. Vou escrevendo sobre os assuntos por partes, caso contrário, o artigo seria muito extenso. Partimos da ideia de que uma peça, um texto dramatúrgico tem uma vida. Ela foi escrita por alguém que viveu em determinada época, acirrada por motivos econômicos, sociais, culturais, pessoais, históricos. Dentro do contexto da escrita tem o enredo, o gênero ao qual foi concebido, as personagens, as ações, os conflitos, antagonistas, protagonistas, apoios. Isso pode ser claro dentro do texto ou não.
Vamos lá!
leituraPrimeira leitura do texto. Todo mundo pontual no local escolhido, cada qual com seu texto, um lápis (não uma caneta), um belo sorriso estampado no rosto e vamos ao trabalho. Nessa parte da leitura, fazemos uma leitura branca, sem intenções concretas, sem interpretar. É um primeiro contato. Porém…Ele deve estar repleto de entusiasmo! (Entusiasmo = Deus interior). O entusiasmo na arte é a ponte que une a vontade de fazer com a criatividade a ser usada. Deixe-a exposta.
Sorria! Argumente! Pense! Deixe as impressões virem à tona, elas são genuínas, naturais e serão muito importantes para se medir as primeiras impressões que o público terá com esse texto representado/interpretado no palco. Aos atores, nada de fazer pré-pesquisa de quem é o autor, quem montou, quantos prêmios, quantos jabutis, quantos nhenhenhém. Não precisa! Isso atrapalha! Isso aumenta um ego bobo! Parta do zero! Parta da semi-ignorância ou ignorância. Só anotem nos seus textos todas as indagações, curiosidades, ideias, risos e dúvidas. Esses sim, serão importantes para se dar vida ao texto.
No próximo artigo, continuo falando sobre isso. Porque tem coisa pra dedéu! Aliás, o que quer dizer dedéu? Vou pesquisar! Um beijo e um queijo com patinhas de caranguejo! Não, só o beijo está bom!
Indicação
  • Livro para ler (e analisar): O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna
auto da compadecidaEsse texto, dito pelas palavras de Sábato Magaldi (1962), como o texto mais popular do teatro brasileiro, conta através de recriação de textos de cordel, as peripécias de João Grilo, típico cidadão do nordeste brasileiro com suas artimanhas de bom brasileiro dentro de uma dramaturgia que dá pano para a manga. Mescla elementos de cultura popular, com literatura de cordel, comédia e cultura religiosa. Suassuna, o mestre, nos presenteia com esse clássico do teatro, que ora foi adaptado para o cinema e televisão.

Poesia minha - Reticências

Reticências

Viramos prostitutos de ações
insanas, ditadoras, egoístas, maníacas,
de gente com o coração endinheirado
Levemente engravatada, escondendo
o lado tirano de ladrão de patacas
Destratando o Homem, seu espelho
E o transformando no animal presa fácil.
Tão cruel...........