sábado, 12 de março de 2016

Kultme 28 - Omelete de definições sobre ser ator



Omelete de definições sobre ser ator

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Afinal de contas, que é ser ator, o que é o Ser Ator? O Homem, que faz do palco a sua casa e se transforma para transformar quem ali vai para vê-lo atuar, quem é ele, que é isso?
Pelos caminhos claros e ocultos por onde andei já me deparei com várias definições do menino(a) sempre lembrado(a) quando se fala no bardo inglês William Shakespeare. Para muitos o pai do teatro, para alguns um mero representante inglês com suas novelas recheadas de mocinhos e vilões.
Há quem ache que esse mocinho – o ator – é o “cara”, o responsável por fazer a história tomar corpo. É! Eu vejo assim também. O “modus operandi” é que irá fazer a diferença na criação e na interpretação, levando à representação. Ops, sem mandar eu tomar calmante porque usei a palavra representação! Para a contemporaneidade, essa palavra soa um tanto ultrapassada, segundo muitas línguas que desdobram o Teatro em mesas recheadas de bebidinhas geladas. Adoro discussão em mesa de bar sobre Teatro. Dou boas risadas e aprendo muito também.
Há quem ache que esse mocinho – o ator – é aquele rapazinho que quer pegar todas as meninas ou meninos e o fazer teatral é a mola de escape para isso. Há quem pense que ser ator é passaporte para TV. Mal sabe que o ator se distribui tanto para conseguir pagar o aluguel e que as coisas não caem tão fácil do céu. Se não estudar, até consegue, mas não persiste. Se não se jogar na criação, no palco, nas mãos dos diretores, nos livros, nos jogos teatrais, fica na mão! Na própria mão, que, em Teatro, não significa nada. Teatro precisa de várias mãos, nem que se tenha aquele magnífico monólogo famoso na pele daquela atriz famosa que fazia a novela famosa na rede de televisão famosa.
A fama não tem rigor. O sucesso é efêmero. O trabalho é árduo, prazeroso e unânime. E o Teatro é arte viva! Enganar-se é muito comum.
Há quem ache que esse mocinho – o ator – é um sujeito que não faz nada na vida.  As tias adoram dizer isso. Muitas famílias também. Vejo aqueles quadros de programas de auditório, onde se refaz a trajetória de determinado artista e os depoimentos são um barato, quase um esquete cômico: Sempre cheio de coisas positivas, mensagens de amor e abraços, sorrisos e choros. No real a quantidade de falta de grana, xingamentos e cobranças familiares são presença constante. A tia fala:
– Como você está sobrinho lindo?
_ Oi tia, sou ator! Vai ver meu espetáculo.
– Quando que você vai começar a trabalhar menino. Um moço tão bonito! Precisa ficar lindo para arrumar uma linda moça para casar!
– Tia, a senhora é uma fofa! (rs)
Esse diálogo já foi vivido por muitos atores. Talvez não exatamente dessa forma, porém, com esse olhar desqualificado que herdamos por aqui nessa terra brasílis. No mundo não sei…
Eu conheço atores ótimos, atores que são esforçados e acertam, outros que tentam acertar, mas demoram, atores que copiam, atores que não criam, atores carismáticos e fortes, outros carismáticos e fracos, muitos famosos fracos, muitos famosos fortes, outros desencanados e encantadores, outros encanados e encantadores, outros encanados e que ficam melhor ao longo da temporada. Conheço atores que se doam ao Teatro, conheço outros que nem leem Teatro. Tem gente que sonha ser ator, mas troca o sonho por um bom ordenado. Tem gente que troca um bom ordenado por um palco bem ordenado. A verdade, leitor, não compete a nós julgar. Faça seu trabalho e tenha orgulho dele.
Afinal ser ator não é padecer no paraíso. Ser ator é gostoso pacas!


domingo, 24 de janeiro de 2016

Kultme 27 - O caos e o parto




O caos e o parto


ano novoVão-se os panetones, frissons natalinos e alegria geral e chegam os sonhos, as vontades, os focos, os projetos, os quereres. Ano novo, projeto novo!
Outro dia conversando com um amigo, discutíamos sobre o que está sendo feito no teatro, hoje, aqui no Brasil, que desperte o interesse das pessoas. O que nos fazia levar ao teatro? O tema, diretor, elenco, história, encenação ou simplesmente curiosidade. Chegamos em algumas possíveis respostas, mas uma única: Vá ver! Vá ter a sua sensibilidade acessada sobre a obra feita, seja de qual montagem for. Deixe a curiosidade nocautear os paradigmas criados. Permita-se! Desarme-se de argumentos seus e aproveite! Afinal de contas, é ano novo e pense em mudar o velho pensamento.
Em tempos de projetos novos, nossa capacidade de criatividade ou criação deve alcançar patamares suspensos. Eu sinto uma ânsia enorme quando penso num processo de criação de espetáculo, ruidosamente experimento, provoco, penso, modifico, os atores ficam em trânsito.
ideiaÉ uma verdadeira máquina de pensar. Pode ser o caos? Pode. O caos é muito interessante, ele desarma o correto, o lugar conhecido depositado nas nossas mentes. Em teatro, o mais interessante é o lado não visto, é o lado vivido. Mas não pode ser “o suprassumo da filosofia Neanderthal” – aquilo que chamamos de masturbação filosofal bruta. Popularmente conhecida como despirocada teatral. (ah ah ah) Teatro é agente modificador, artístico, que produz uma reação de sorriso, choro ou devaneio.
Portanto, deixar o umbigo de lado é primordial. Não no processo, que é uma máquina em funcionamento e merece ser amplo nos desdobramentos, mas sim no resultado final, que é o produto apresentado aos olhares externos. O público é nosso objetivo e o umbigo deve ser deixado enfaixado, pois a vida se desdobra na ruptura do cordão umbilical, no momento em que começamos a assumir nossa personalidade de viver. No teatro não é diferente. É uma gestação.
A ideia vem, fecunda, desenvolve, joga toda a gama de amor, dúvidas e ansiedades, provoca o caos. É o desenvolvimento. Na hora do parto, acompanhado do choro, há de surgir um belo e delicioso sorriso. Do público!
bowiePS – Mister David Bowie, nosso camaleão do rock disse adeus a nós. O que falar desse cara que eu tive o prazer de ver aqui no Brasil num show para lá de autoral. Bowie é aquele tipo de artista que fará falta à nós todos, pois sua influência na música e no comportamento mundial ficou clara com a “bombástica” repercussão de sua morte. (Eu fiquei sabendo de madrugada por uma linda amiga, que mora em Estrasburgo, na França, pelo aplicativo Whats up, às 3:00 horas da manhã). Isso se deve, exclusivamente, por Mr. Bowie ser quem foi. Um camaleão. Ah, e era bom ator. Furyo, em nome da honra que o diga. Vá Bowie, encontre-se com Marília e juntos, cantem para nós.
Happy new year !!!!!!
Indicação
  • Livro para ler: Yerma, de Federico García Lorcayerma
Yerma é uma mulher que vive o drama de não poder conceber um filho. Busca de todas as formas engravidar e enfrenta a indiferença do marido, Juan, que não demonstra nenhum interesse em compartir da sua angústia. Imperdível tragédia de Federico García Lorca

Poesia minha - Observação

Observação

Entro no ônibus com destino à minha casa
Olhares me encantam, analiso.
Da rebeldia da juventude, camiseta do Joy Division
Uma garota ouve, com fones grandes
Algo que a faz feliz,
Meio Monalisa da tela de Da Vinci, menor aprendiz?

Mistura-se com a quase crueldade
da senhora ao lado que deve,
estar pensando na criança deixada sozinha
com comida sobre o fogão
para matar a fome que vem no decorrer do dia

O dia do rapaz do banco detrás foi bom,
Seus óculos brancos não escondem um brilho brilhoso
De quem beijou muito ou se encantou com alguém
Nessa terra de cidadãos invisíveis, terra de alguém!

O motorista cumprimenta por buzina
Uma buzina sucinta reage
E eu também sorrio

Sorrio sempre quando
volto pra casa

E percebo tudo à minha volta!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Kultme 26 - Em tempo de natal, vale um abraço, amigo


Em tempo de natal, vale um abraço, amigo


Natal vela.Estamos naquela parte do ano onde todos os valores positivos estão vindo à tona para belos apertos de mãos, abraços apertados, suspiros dobrados, papeizinhos sorteados de amigo secreto, essas coisas comuns ao mundo natalino.
Que bom seria se isso acontecesse durante o ano todo. Precisamos de amigos, somos amigos, conhecemos amigos, viramos amigos, lembramos dos amigos. Os amigos são essenciais, quando se fala de Teatro. E existem de toda a forma, intelectualidade, gostos e desgostos.
Eu tenho vários. Alguns fiéis, outros quase fiéis, outros “tão nem aí”. Explico:
Quando alguns amigos-atores entram em cartaz, minha caixa de e-mail e minha página do facebook ficam repletas de convites gentis e bacanérrimos. Fico feliz pra caramba, porque meus amigos estão trabalhando, estão produzindo e mostrando sua arte para outras pessoas. Não vou a todos, porque também não tenho essa grana todo dia. E, cá para nós, amigo fazendo peça, temos que pagar. Nada de pedir gratuito. As contas vencem. E ninguém vive de brisa. Quando tenho grana, pago!
Muitas vezes não vou. Muitas vezes eu vou. Quando não posso ir, tento ajudar de alguma forma. Compartilho o flyer, envio para os amigos ou tento com amigos, a divulgação em seus espaços culturais. É o jeito que arrumei de ajudar de alguma forma.
Ainda ajudo nos “crowdfunding” nas vaquinhas virtuais, kickantes, catarses, entre outros. Não sou o cara da grana, mas se tiver e puder, ajudo. Acredito que a colaboração pode abrir os corações e levar público ao teatro.
sumirQuando eu entro em cartaz, a situação é outra. Tenho amigos que somem. Nem uma curtidinha, nem uns “parabéns”, compartilhar nem pensar. Às vezes, até acho que o Triângulo das Bermudas existe aqui. Um vazio só! Como um bom virginiano que sou, sei quem some. Fico bolado! Na última temporada, gente que considero pra caramba, que me chamou para ajudar no crowdfunding, tomou um chá de sumiço até hoje. Amigos atores que só se interessam por você quando precisam de você? Não gosto de pensar assim. Me engano e acho que é porque estão trabalhando. Será?
Tem aqueles que curtem, escrevem, vão, aplaudem, tiram fotos, postam, voltam com outros amigos, pagam pelo seu trabalho (espetáculo). São amigos espectadores. Ah, uma curiosidade: A maior parte não são do Teatro. Com anos de teatro de grupo com os Cafonas & Bokomokos e com um repertório muito visto em longos anos, entendo que nosso maior público não é da arte, mas gosta de arte, de teatro, risos e choros. Porém, tem sim amigos atores que são profundos conhecedores do meu trabalho. Poucos, mas tem.
teatroAcho, no mínimo curioso. O ator só vai ao teatro quando tem gente famosa no elenco? Ou porque veio de fora? Ou porque está no teatro da moda, saiu na revista de artes daquela revista famosa. Uma amiga perguntou um dia, após um convite: “Mas é legal?” Acho de uma falta de ética! Vá ver, criatura!!! Vá sentir! Teatro é sentir, não é propaganda de cerveja. Não tenho mais saco para falta de educação. Não tenho!
Por isso, às vezes, me parece contundente essa quantidade de risinhos fáceis, choradeiras em nome do menino Jesus, abraços e champanhes estourados, se durante o ano, a pessoa só caga e anda.
Como eu sou um maluco no pedaço, adoro teatro, adoro escrever, conversar, dar aulas, voleibol, pessoas, animais, adoro conhecimento, sintam-se abraçados, pois sou da época que no Natal comíamos na mesa. Que em 2016, possamos ser mais felizes e com mais dinheiro no bolso.
Obrigado ao Kultme pelo carinho e a parceria! Evoé!
Happy new year!
mariliaP S: Marília Pera deixou uma lacuna ao fazer teatral. Sua sabedoria, sua paixão, sua articulação, são tão essenciais para qualquer ator, para qualquer profissional das artes. Sua elegância dengosa, seu profissionalismo, sua entrega. Marília, eu adoraria ter lhe dado um abraço, mas não tive essa sorte! Mas te acompanhei e te acompanharei eternamente. Vá, minha estrela, brilhe e ilumine nosso mundo aqui. Marília é sim uma diva dos palcos!
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Indicação
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  • Livro para ler:
Não leia no final do ano, divirta-se à vontade com seus amigos na chuva, na rua, na fazenda…na praia…ou numa casinha de sapê.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Poesia minha - Faça o seu

Faça o seu

Natal, compras, juros, dividendos, sorrisão
Natal, amor, compreensão, amizade, gratidão
Natal, se não tenho não sou não
Natal, se faço, sou abusado, sou não?
Natal parei na contramão, safanão!
Natal, fome, fartura, pobreza, leite e pão
Natal, brilha, reluzente, feliz cidadão
Natal, cidade grande, pequena, oração
Natal, pra que serve mesmo? Hummm, sei não!
Natal, é o nascimento de Jesus. Quem? Sei quem é não..
Natal, fiz compras novas, estourei o cartão
Natal, pago quando der, preocupo não
Natal, briga no Congresso, haja votação
Natal, para amenizar a briga, peruzão!
Natal, terra linda do Nordeste, areião
Natal, uma data do coração
Transformada em valores sem emoção
Natal, natal, natal, nata, nat, na, não...
Que falta de opção!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Kultme 25 - Quer vir pra cima? Vem! Vai ficar mais gostoso!

Quer vir pra cima? Vem! Vai ficar mais gostoso!

pedra
Drummond já dizia: “Tem uma pedra no caminho, no caminho tinha uma pedra…”. Pois vamos divagar sobre o conflito no teatro. Esse sujeito – o conflito – é o responsável pelos corações acelerados, pelas diversas óticas de uma situação ou pelo “desacelerar” ou “interessar” de uma boa história a ser vivida, vivenciada ou contada no palco.
Quando estamos no caminhar da vida real, nos deparamos com variadas e múltiplas ações que nos impelem o caminho, popularmente chamadas de dificuldades. Drummond chamava de pedra, no teatro chamamos de conflito.
“Se caminho para frente, alguém ou algo vem no movimento contrário, chocando-se comigo”. No fazer teatral não é diferente. Para um bom espetáculo acontecer, há de ter um excelente conflito, recheado, muitas vezes, de pequenos conflitos. As personagens chocam-se com grandes muralhas para tornar muito mais interessante a sua trajetória e fazer com que os espectadores se movimentem na cadeira. O drama sobrevive disso: movimentos contrários dos desejos, seja de quem for.
fFrente a isso, temos alguns tipos de conflitos que são constantes em dramaturgias. O Homem é o cerne do texto. Ele pode se confrontar com Destino, como um Hamlet “enduvidado” entre ser ou não ser, por exemplo. Seria o destino de Hamlet confrontar-se com sua própria essência no papel da mãe? O Fantasma de seu pai é portador da verdade ou não? Temos então, um outro tipo de conflito que é do Homem contra si mesmo. Ele se questiona. Ele não se compreende, ele sofre e terá que perceber isso. Arjuna de “O Mahabharata” enfrenta isso diante do episódio Baghavad Ghita, onde terá que decidir, se entra em guerra com sua própria família ou desiste da batalha encarando-se com seus próprios medos e fraquezas.
Há ainda, o conflito do Homem contra as forças da natureza, onde ele se depara com a Natureza como antagonista de seus atos, do Homem contra outro Homem e do Homem contra a sociedade. Esses dois últimos tipos de conflitos são comumente utilizados nas novelas e cinema. A personificação do conflito está num outro Homem, um personagem, que ora pode ser um novo amor, um amigo do mal do passado, uma mulher loucamente apaixonada que volta para acabar com a felicidade alheia entre outros.
Outro dia fui assistir à um espetáculo e fiquei horas tentando compreender qual era o conflito. Não tinha! Não teve o carinho para pensar nisso, daí vira um quadro, lindamente pintado ou não (no caso era). Mas não nos arrebata da cadeira, não impulsiona a vida. Fica na contemplação e o teatro passa a ser somente exposição. Não que isso não posso te modificar. A arte modifica, mas estamos falando de teatro, ação. Por menor que seja, o conflito deve ser valorizado, afim de que o público perceba que a vida pode não ser só rosas, podem haver espinhos pontiagudos loucos para ferir a pele.
E cá pra nós, os espinhos são mais desafiadores do que a beleza das flores!

Poesia minha - Verbos

Verbos

Mata a barata
Mata o mosquito
Mata a lagartixa
Mata a vovó, lobo
Mata a aula
Mata a cobra
Mata, mata, mata, mata o caracol
Mata o rato
Foge do bêbado
Foge do louco
Foge do negro
Foge do desconhecido
Bate na canela
Bate no menor
Bate na menina
Bate no menino
Bate, bate, bate, bate para vencer
Vencer, vencer, vencer
O quê?
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