Dom ou talento?
Muito se fala, nas conversas dos amigos e nas leituras ocasionais que quem nasce com dom, talento tem! “Nasceu para isso!” “Está no sangue” “Reencarnação de Shakespeare!”. São algumas das afirmações que meu ouvido querido já teve a oportunidade de assimilar. Não discordo, mas também não concordo. Estou no meio fio!
Nessa minha pequena estrada que se agiganta cada vez que caminho mais, já vi e presenciei tanto talento descoberto que estava ali adormecido e, em determinado momento do aprendizado, vem à tona. E isso não significa que o jogo está ganho. Determinados talentos não são estendidos à uma vida na arte. Posso ser um Às no Clown e ter uma dificuldade enorme para construir um Woyczek na essência. Isso não pode ser encarado como um não talento. É um não dom! Dom é teu! Talento pode ser construído!
Vejo que a maior armadilha de quem possui um dom é adormecer com ele, não o adubar e nem colorir suas formas. Fica uma coisa marcada, sabida, sem entusiasmo, morna. A televisão, muitas vezes, pela rapidez e pela lucratividade, sem se importar com a arte, leva o ator com dom, a ficar estagnado. Nós, espectadores, até aprendemos a vê-los sem contemplá-los!
Outro dia assisti à um espetáculo teatral que tinha um ótimo ator da telinha. Para minha surpresa era muito chato, igual, repetindo as mesmas piadas que deram certo no início da peça. Pensei comigo: “Cadê a habilidade para trabalhar o dom?” O teatro permite isso. Há tempos não vejo uma novela de cabo a rabo, mas me informo, fico ligado, leio. Como minha mãe assiste novelas, eu escuto do meu quarto algumas novelas enquanto trabalho ou me esparramo na cama. Ouvir está muito melhor do que ver. Não há diálogo bom, não há cor, é um pastel sem recheio. Quando aparece uma pizza, corro para a sala para degustar e fico pensando porque não se faz isso com todo mundo, com todo o elenco? Quem consegue sair disso, faz uso do dom e o recheia com o talento que a experiência dá.
Imagine agora essa situação no palco? Humm…
Indicação
- Livro para ler: Bodas de Sangue, de Federico García Lorca