sábado, 23 de julho de 2016

Kultme 32 - Há algo de podre no reino da Dinamarca


Há algo de podre no reino da Dinamarca….

satyrosUma imagem teatral me vem à memória quando, aos 15 para 16 anos eu fui, sozinho, pela primeira vez, assistir à Sades ou noites com os professores imorais, da cia teatral Os Satyros, lá no bairro do Bexiga num teatro que não lembro o nome. Ou já seriam 18? Haja vista, que o conteúdo de corpos seminus, nos pegando (plateia) era extremamente sensual e sexual. Não sei, não me lembro, mas a imagem é nítida aqui na minha caixola. Neste dia decidi, para mim, que eu ia ser ator um dia. Nem que fosse para fazer uma única peça de TEATRO na minha única vida, da qual eu não fazia a menor ideia do que seria.
Eu já tinha o teatro como prática. Tinha uma professora maravilhosa de Educação artística no ensino colegial no Colégio Quirino, da Vila Guarani – Nanci Morgatto – que usava o teatro como ferramenta em aula, bem como suas inúmeras e criativas aulas de arte, que incluíam, além do teatro, esculturas em lápis, giz, sabão, desenhos em perspectivas, desenhos geométricos, crochê em pano de prato e uma sabedoria ímpar no quesito arte. Ela é a grande responsável pelo artista que ousei ser. Pequeno artista mas sou.
rockNessa época, nos anos 80 e 90, a minha maior diversão era ficar em casa ouvindo rock’n’ roll na extinta rádio 97 FM, a rádio rock do ABC paulista. Tinha acabado de mudar para um bairro que me afastou dos meus melhores amigos e acabei sendo amigo do meu quarto, do meu rádio, dos meus discos, dos livros ainda não (nessa época eu ainda não os havia descoberto como a magia que são). Ficava escrevendo qual música tocava mais e acabei conhecendo uma pá de rockstars pelo nome. Alguém aí conheceu 51 st States of America, do grupo New Model Army? Pois eu conheci aí, no meu quarto, na minha solidão, perdido em músicas, canetas e questionando a minha sexualidade. Coisa de adolescente….
Me apaixonei nesta fase também, mas não digo por quem…. O que eu mais lia nessa época era jornal, principalmente os cadernos de cultura e entretenimento, o de política, eu só folheava (desconhecendo a importância que a Política exerce sobre os outros setores) e foi num desses cadernos que vi o anúncio da tal peça citada. Fui. Arrumei uma beca invocada, uma camisa, sapatos engraxados com categoria e cai lá no Bexiga, numa peça cheia de gente, com um palco totalmente interativo, com uma mulher mijando num careca com cara de mordomo de filme de terror e os meus olhos castanhos fascinados com aquilo tudo.
O que isso tudo tem a ver? Que nos conta a sua história, Dimi?
Sim e não. O fascínio que o teatro me proporcionou, o vigor que adentrou no meu coração e no meu entusiasmo foi um grande rinoceronte parceiro para aflorar a arte teatral em mim. Fui pra cima, daí conheci os livros – a dramaturgia escrita – as peças, Shakespeare, Stanislavski, Brecht. Assisti outros espetáculos. Comecei a analisar as novelas, atores me atraiam mais. Comecei a ver beleza na arte dos atores, nas nuances criadas, nos jogos. Alguns anos mais tarde fui pra escola técnica e logo a primeira estreia em teatro – “O Clichê do Amor”, de Guilherme Vidal.
E hoje?
teatroMuitas pessoas me perguntam indicações de escolas para a graduação de ator. De pais a adolescentes. E, eu sempre pergunto: Qual é a sua? O que você quer? O que você acha que é ser ator? Sou um questionador até quando sou colaborador. As respostas são sempre muito automáticas, elas vêm em forma de amor à TV, à arte da TV, que também é linda, diga-se de passagem (quando se tem esmero e amor). Todo mundo quer estar na próxima novela da Record – os 10, 11, 12 mandamentos, sei lá o quê. “Assisto todo dia a Malhação, quero entrar lá”, como se fosse uma “firma” que se batesse o ponto e cumprisse o dia. “Um amigo disse que tem uma amiga que conhece uma garota que fez Rebeldes – ah, eu quero. Quero fazer musical, o Rei Leão! Como se fosse simples, trivial! Não quero acabar com o sonho de ninguém, mas sou realista….O mundo de Alice deve ser convertido para o seu, daí se conquista. Caso contrário, a frustração reinará e se não souber lidar com isso, o amor vira rancor.
Um jovem desse pode ter a oportunidade de participar da novela que almejou, mas e a paixão? Onde estará a paixão pela arte de interpretar? Daí leio que determinado ator, que faz um sucesso enorme na televisão aberta, declara que não gosta de teatro. Os seus seguidores, a maioria jovens fãs do seu trabalho, acreditam e reproduzem essa declaração. É um movimento em cadeia….É um efeito dominó. O teatro é a raiz dessa arte televisiva, quer queira ou quer não! Acho preocupante ignorá-lo.
Isso sem contar na enganação generalizada de utilizar um trabalho como fonte de outro. Quantos produtores dá curso de teatro modificando a função de produtor para diretor. Tem gente que compra gato por lebre porque também não se preocupa com as orelhas. Tem que investigar, o olhar tem que ser apurado, porque existe uma fábrica de gente esganiçada para fazer do Teatro uma forma fácil de se levantar dinheiro e aspirantes ao elenco sem entusiasmo. Como já dizia Marcelo em Hamlet – “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.
O mais legal de tudo isso é que o caminho com paixão será sempre recheado de pequenas paixões que despertarão o deus interior – o entusiasmo. E teatro com entusiasmo não é demodê. É luxo só!
Foco. Olhos abertos. Foco. Ouvidos atentos. Foco! Gozo!

Poesia minha - Diaadia

Diaadia

acordopisochãocorpodorserá?
levantovouàguacorpolisoserá?
portasaioandoruaônibuscorposerá?
corpocorpocorpocorpocorpoportaserá?
escadapessoasolharescorpopaqueraserá?
olharencantocabeloolharsorrisocorpoé?
seduçãoventoroupachãoolhoscorpoé?
palavrasbocaintençãocorpo?
É!
mãosunhasapertocoraçãotictacmão?
soslaiosorrisocaminhochãoalegriadia
memórialembrançadiaadiacorpo!
corpocorpocorpocorpocorpoé!
voltatremcorpopessoasolharescheiroserá?
apertacaminhasorrimemóriamanhãserá?
vaziovaziovaziosilêncio!
portãoescadapessoasentradagatosolidão?
Não!

sábado, 2 de julho de 2016

Poesia minha - Estrangeirismo


Drive in, drive thru, capuccino, hamburguer, selfie, self-service, Cupcake, petit gateau, emoticom, t-shirt, crossfit,smart phone, touch, pet shop, bike,Facebook, personal training, stylist,


Escrever é percepção do entendimento


Post, game over, company, rock, notebook, pole position, chip, barman, hobby, black friday, hole, out, royalty, Baby doll, delivery, rush, workholic.


Palavras não são más. São ingredientes culturais


Stress... Ruffles, Pullman, Dove, Kitchen, Snob, Coke, ....Comfort, McDonalds, Bob's, Carrefour, Baby beef, Site, free shop, ok, tablet, pen drive, vermute, bistrot, cache.


apropriação para entendimento é colonização?


Nova York ou Nova Iorque?Musse ou mousse?Caubói ou cowboy?Abajur ou abat-jour?Eis a questão..Ser ou não ser ou to be or not to be?


Ah, deixa eu correr. Já é hora do happy hour!Michele, Willian, Johnny, estarão me esperando,com sorrisos e amor no coração!

domingo, 26 de junho de 2016

Poesia minha - Guernica

Guernica

Tudo anda caro!
O ônibus custando $ 3,80
Todo mundo grudado, não se importando com mais nada
em leste, sul, oeste, norte
na marmita só vai salada
A gente se acostuma, reclamar pra quê?

As empresas não pagam vale transporte integral
Se não aceitar, a contratação, das mãos, sai
Falam que pagam hora extra
Mas quando precisam, falam em favor, na moral!
Moral imoral! Empresarial...
Mas não tem problema, tudo vale a pena
Quando a conta não é pequena

No teatro dos vampiros, há delação, em vão
Entre sorrisos, falsas modéstias ou negação
Provoca ira, inércia ou indagação
Se eu roubo uma agulha
Vou direto pra prisão
A gente se acostuma com essa divisão
das classes políticas e dos cidadãos...

Não importa se você tem filhos, família ou não
Quero seu dinheiro, seu bem,
material ou não, deve ser meu
Você tem e eu não,
meu direito é tomar de você
o direito que você teve de ter
Só me deixe vivo, a vida Deus me deu
Não te dei nada! Afinal Deus sou eu...

Afinal não se pode acostumar
Com falta de paladar,
Com respeito unilateral,
Com pisão no pé sem desculpas
Com falta de educação, prepotência e invasões
Violência proposital, ladrões
Só queremos paz nos nossos corações!
E um pouco de dinheiro pra diversão.

Acostumar não!

sábado, 25 de junho de 2016

Kultme 31 - Vagabundo não!


Vagabundo não!


Parem o mundo que precisamos fazer uma arca – que não é a de Noé – para colocar um bando de gente dentro e mandar para um outro lugar não habitado do universo.
Explico: Hoje todo mundo se vê no direito e na ousadia de se meter em todo buraco onde não é chamado. Em buraco de cobra, coelho não chega perto!
Esse artigo não tem caráter político!
Um certo deputado metido a pastor ou pastor metido a deputado se viu na razão ao sentar em qualquer lugar e mandar uma mensagem à classe artística, ofendendo e chamando a todos que fazem arte, de vagabundo. Vagabundo!
Significado de vagabundo (conforme dicio.com.br)
Adjetivo: Que caminha sem rumo determinado; que perambula ou vagueia; andarilho.
Que vive de maneira desocupada; que não possui ocupação; que não tem vontade de realizar suas tarefas.
Que não trabalha ou não gosta de trabalhar; vadio: aluno vagabundo.
Figurado. Que expressa inconstância; que se comporta de modo volúvel.
Pejorativo: Que apresenta péssima qualidade; inferior.
Pejorativo:Desprovido de honestidade; que se comporta de modo desonesto; malandro ou canalha.
s.m. Pessoa que vagueia; quem não possui ocupação e/ou objetivos; andarilho, malandro.
Direito. Aquele que não possui um endereço fixo ou um negócio/ocupação constante.

Pois é, grande ofensa para quem trabalha tanto e faz de caixa de sapato, chapéu de época. Quero citar aqui quais os profissionais que um espetáculo de teatro necessita. Talvez nosso senhor das razões, o tal deputado, finge ignorar:
1-Dramaturgo ou roteirista – o autor do texto a ser encenado. Pode acontecer de ele participar do processo de criação ou não.
2 – Encenador – responsável pelo olhar maior do espetáculo. Ele vê o espetáculo sobre todos os prismas.
3 – Diretor – responsável pela criação do espetáculo, dirigindo atores, cenas e imprimindo ritmo, instigar a criação, suporte a todos os outros envolvidos.
4-Produtor – é o profissional que dá assistência administrativa, artística e negociação com patrocinadores e projetos. Geralmente é o testa de ferro negociador.
5 – Sonoplasta – responsável pelo “barulho” da peça. Este profissional criará as músicas/sons ou usará músicas já compostas para ambientar os momentos e nuances.
6 – Operador de som – Aplicará, nas apresentações, a trilha sonora composta.
7 – Cenógrafo – Cuida da idealização do cenário, acessórios de cena para o espetáculo. Geralmente trabalha com auxiliares e precisará de costureiras e montadores.
8 – Figurinista – Estuda os personagens, desenha, cria e idealiza os figurinos e acessórios do espetáculo. Precisará de costureiras.
9 – Iluminador – Criador da luz do espetáculo, dando nuances para o desenrolar do drama.
10 – Operador de luz – Fará a operação da mesa de luz nas apresentações.
11 – Elenco (atores e atrizes) – São a ação do espetáculo. Tem a função de mostrar ao público a história escrita em forma de teatro. Trabalham em casa com o texto para ensaios mais produtivos. Se preocupam com o corpo, voz, alimentação, interação com o outro. Trabalham em todas as apresentações.
12 – Maquiador – São contratados para espetáculos grandes. Nos menores são feitos pelos próprios atores.
13 – Contrarregra – Auxiliar na montagem do cenário e transformação de cenas.
14 – Preparador corporal – Auxiliam os atores com relação ao trabalho corporal exigido pelos personagens. Podem criar coreografias, na ausência de um coreografo.
15 – Preparador vocal – Trabalha a voz do espetáculo na boca do elenco.
16 – Bilheteiro – Cuida dos borderôs e atendimento do público nas sessões.
17 – Segurança, bombeiros, administrativos, faxineiros, serviços.Isso sem contar funções que são relativamente novas nas montagens, visagista, por exemplo.
Quanto vagabundo não é?
É sabido que tem artistas que são clássicos sanguessugas, disso não discordo. Mas não coloque batatas podres na mesma sacola das batatas boas. Tenha sabedoria!
Portanto, quando não sabe da missa um terço, não venha querer dar lição de moral. Vá cuidar da vida daqueles que acreditam nas suas palavras na “sua casa de Deus”. Faça o mínimo para quem lhe dá valor!
E eu só estou dissertando sobre teatro. Imagine na música, artes plásticas, cinema, dança, artes em geral., que juntos ajudam a compor a orquestra chamada Cultura!
Profissionais de alto gabarito sim senhor!
Indicação
  • Livro para ler: Como se fazia um Deputado; Caiu o Ministério; As Doutoras, de Franca Júnior
A ganância pelo poder, os hábitos e tendências, a política da “sacanagem” da classe       burguesa carioca do século passado, recheiam esse livreto da Ediouro. Um achado.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Poesia minha - Tempos Modernos

Tempos modernos


Se não fiz, devia ter feito
Se não vi, devia ter visto
Se não comi, devia ter comido
Se não vivi, devia ter vivido
Se não falei, devia ter falado
Se não chorei, devia ter chorado
Se não rezei, devia ter rezado
Se não dialoguei, devia ter dialogado
Se não cantei, devia ter cantado
Se não engasguei, devia ter engasgado
Se não amei, devia ter amado
Se não judiei, devia ter judiado
Se não pari, devia ter parido
Se não votei, devia ter votado
Se não escutei, devia ter escutado
Se não odiei, devia ter odiado

Mas ninguém quer saber de mim, só do resultado...

sábado, 14 de maio de 2016

Kultme 30 - 5 amores

5 amores

deitarQuando o assunto é teatro, faz-se necessário ter em mente alguns conceitos bem claros, entendidos e extensamente amados dentro de si: comprometimento, disciplina, bom humor, criatividade e um corpo vivo.
Outro dia, iniciando uma aula sobre teatro com alunos adolescentes, uma aula prática de disposição, percepção e vivacidade, um aluno, que já tinha me dito que queria ser ator, deitou-se sobre o tatame e deixou-se vencer pela agonia (dele) de ter que ouvir, processar e agir. Sentou-se e depois deitou! Deitou! Pensa se fiquei furioso? Fiquei, mas com o coração leve. Pensei: “Se o moço (que diz querer ser ator), não consegue ter o comprometimento consigo mesmo numa aula de teatro, imagine como será lá na frente? Ele terá que ampliar (e muito) esse senso de comprometer-se. Hoje é com ele. Amanhã, vai ser com ele, com o estudo, com os amigos atores, com o diretor, com o processo, com o corpo, com o espetáculo, com o público, com o Teatro”. Levante-se! – Pedi. A resposta foi um silêncio desprezível. Definitivamente, para ser ator, o respeito vem antes de tudo. Se você não respeita você ou alguém, como comprometer-se com aquilo que almeja? – respondi e toquei o barco com a turma que, a essa altura, me olhava com grandes olhos e ouvidos largos.
“Disciplina é liberdade”, já cantava Renato Russo em uma das suas muitas canções. Pois é isso mesmo. A disciplina contamina para trazer a liberdade que o ator precisará no decorrer de um processo teatral; Comprometer-se (olha a palavrinha aí novamente) com as regras e ousar acatar a disciplina acertada por horários, caminhos, estudos e compromissos o levará a uma ousada liberdade e trilhará um caminho por onde ele – o ator – versará seus venenos e doces sabores. Ter disciplina não é e nunca será só para soldados da pátria, são para os soldados da arte também.
bom humorTodo processo deve ter bom humor. Isso não significa que tenha que ser bagunça, pois bagunça não é sinal de humor. Quando cito o humor, penso na ideia que a leveza de um entendimento seguido de palavras, sorrisos e coração leve é muito engrandecedor ao processo à medida que picuinha, opressão e grosseria faz do processo, um caminhar de tartaruga. A seriedade do processo não deve ser pautado por largos sorrisos ou cara amarrada. A seriedade deve estar em qualquer projeto! O bom humor também. Eu trabalhei anos com teatro humor, e já ouvi gente falando: “Ah vocês morrem de rir nos ensaios, né?” Sim, mas não morremos, porque o babado é sério!
Criador ou criatura, criatividade ou criação, criar ou não criar. Eis a questão. Não há um bom ator, se ele não instigar esse sobreolhar, se a sua imaginação não for abusada. Tem pessoas que são muito “ratas” na criatividade ou criação, outras não. Requerem um tempo. E está tudo certo. O importante é abusar dessa caixa pensante e não ter medo de errar. No processo pode-se errar abundantemente. Aliás, de grandes erros, podem aparecer grandes acertos. No Teatro é assim, a criatividade não é uma figura para pintar, é uma figura a ser construída para pintar.
corpoAh, o corpo! Um corpo vivo que consiga atingir a plateia pelos poros e pelo olhar e que não seja dissociado do ator, da palavra e da não palavra é a máquina, a engenhoca do processo. Para se achar esse corpo há de entendê-lo: sua formação biológica, a extensão da ação, a história física do ator, a história física da personagem, tempo, os movimentos, os gestos, a respiração, entre outros. O corpo dança sempre conforme a música, mas essa música pode não ser a que toca externamente. O corpo vivo não é só dançar o rebolation, corpo vivo é muito mais!
Esses cinco amores descritos acima pode não ser sinônimo de sucesso, porém, podem fazer a diferença. A sua!
Ah, e o adolescente lá do primeiro parágrafo continuou em silêncio até o final da aula. Acho que pensando: “Careca babaca!”
Ou envergonhado por não ter comprometimento perante a vida e as suas escolhas. Mas calma, garoto, o caminho ainda é longo. Dei-lhe um grande abraço!