Há algo de podre no reino da Dinamarca….

Eu já tinha o teatro como prática. Tinha uma professora maravilhosa de Educação artística no ensino colegial no Colégio Quirino, da Vila Guarani – Nanci Morgatto – que usava o teatro como ferramenta em aula, bem como suas inúmeras e criativas aulas de arte, que incluíam, além do teatro, esculturas em lápis, giz, sabão, desenhos em perspectivas, desenhos geométricos, crochê em pano de prato e uma sabedoria ímpar no quesito arte. Ela é a grande responsável pelo artista que ousei ser. Pequeno artista mas sou.

Me apaixonei nesta fase também, mas não digo por quem…. O que eu mais lia nessa época era jornal, principalmente os cadernos de cultura e entretenimento, o de política, eu só folheava (desconhecendo a importância que a Política exerce sobre os outros setores) e foi num desses cadernos que vi o anúncio da tal peça citada. Fui. Arrumei uma beca invocada, uma camisa, sapatos engraxados com categoria e cai lá no Bexiga, numa peça cheia de gente, com um palco totalmente interativo, com uma mulher mijando num careca com cara de mordomo de filme de terror e os meus olhos castanhos fascinados com aquilo tudo.
O que isso tudo tem a ver? Que nos conta a sua história, Dimi?
Sim e não. O fascínio que o teatro me proporcionou, o vigor que adentrou no meu coração e no meu entusiasmo foi um grande rinoceronte parceiro para aflorar a arte teatral em mim. Fui pra cima, daí conheci os livros – a dramaturgia escrita – as peças, Shakespeare, Stanislavski, Brecht. Assisti outros espetáculos. Comecei a analisar as novelas, atores me atraiam mais. Comecei a ver beleza na arte dos atores, nas nuances criadas, nos jogos. Alguns anos mais tarde fui pra escola técnica e logo a primeira estreia em teatro – “O Clichê do Amor”, de Guilherme Vidal.
E hoje?

Um jovem desse pode ter a oportunidade de participar da novela que almejou, mas e a paixão? Onde estará a paixão pela arte de interpretar? Daí leio que determinado ator, que faz um sucesso enorme na televisão aberta, declara que não gosta de teatro. Os seus seguidores, a maioria jovens fãs do seu trabalho, acreditam e reproduzem essa declaração. É um movimento em cadeia….É um efeito dominó. O teatro é a raiz dessa arte televisiva, quer queira ou quer não! Acho preocupante ignorá-lo.
Isso sem contar na enganação generalizada de utilizar um trabalho como fonte de outro. Quantos produtores dá curso de teatro modificando a função de produtor para diretor. Tem gente que compra gato por lebre porque também não se preocupa com as orelhas. Tem que investigar, o olhar tem que ser apurado, porque existe uma fábrica de gente esganiçada para fazer do Teatro uma forma fácil de se levantar dinheiro e aspirantes ao elenco sem entusiasmo. Como já dizia Marcelo em Hamlet – “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.
O mais legal de tudo isso é que o caminho com paixão será sempre recheado de pequenas paixões que despertarão o deus interior – o entusiasmo. E teatro com entusiasmo não é demodê. É luxo só!
Foco. Olhos abertos. Foco. Ouvidos atentos. Foco! Gozo!